Resumo Executivo
- Um evento Super Niño está previsto para o final de 2026, ameaçando uma região onde 167 milhões de pessoas já enfrentam insegurança alimentar e os sistemas alimentares dependentes de monoculturas são estruturalmente vulneráveis a choques climáticos.
- Eventos Super Niño agravam a desnutrição por duas vias: fome aguda causada por quebras de safra e uma mudança para dietas ultraprocessadas quando os preços dos alimentos disparam — com efeitos duradouros no crescimento físico e no desenvolvimento cognitivo das crianças.
- A política agrícola na ALC historicamente canalizou recursos para monoculturas voltadas à exportação, negligenciando a agricultura familiar, que contribui para a resiliência climática, representa 81% das propriedades rurais da região e cultiva mais da metade das lavouras básicas de alimentos.
- A diversificação agroecológica e os Alimentos Inteligentes para o Futuro (Future Smart Foods) oferecem alternativas comprovadas para a resiliência climática e a saúde nutricional, mas nenhum estudo ainda mediu como esses sistemas se comportam especificamente durante eventos de El Niño em escala regional.
- Uma lacuna crítica permanece na preparação em saúde: nenhum programa operacional na ALC conecta previsões do ENSO à vigilância nutricional e à intervenção precoce, apesar de evidências claras de que essa integração poderia transformar as respostas de reativas em antecipatórias.
El Niño–Oscilação Sul (ENSO) é um ciclo natural de aquecimento e resfriamento no Pacífico equatorial que altera os padrões de chuva em todo o mundo. El Niño, a fase quente, ocorre há milênios. Mas o aquecimento global está tornando-o mais forte — as oscilações do ENSO se intensificaram em até 10% desde 1960 devido ao aumento dos gases de efeito estufa.8 Quando isso eleva as temperaturas da superfície do mar no Pacífico 3 a 4°C acima do normal, a comunidade científica o denomina “Super Niño” — um El Niño extremo que desencadeia secas e inundações severas simultaneamente em continentes inteiros.46
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) agora prevê uma probabilidade de 62% de um novo El Niño surgir até meados de 2026, com condições que podem atingir a intensidade de Super Niño até o final do ano.29,43 Para a América Latina e o Caribe (ALC), onde 167 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar em 2024,16 as consequências vão muito além da agricultura — cada ciclo de Super Niño traz implicações diretas para a saúde nutricional e os sistemas de saúde.
Os efeitos do Super Niño na saúde nutricional e na segurança alimentar da ALC
Em 2024, 167 milhões de pessoas na ALC — uma em cada quatro — enfrentavam insegurança alimentar moderada ou grave, o que significa que não tinham acesso regular a alimentos suficientes, seguros e nutritivos. Dentro desse quadro mais amplo, mais de 33 milhões estavam subnutridas — cronicamente incapazes de atender às suas necessidades calóricas mínimas.16 Ambos os indicadores revelam profundas disparidades sub-regionais. A subnutrição atinge 17,4% no Caribe (com o Haiti sozinho em 54,2%), comparados a 5,0% na Mesoamérica e 3,8% na América do Sul. A insegurança alimentar moderada ou grave — que capta não apenas a fome, mas também a incapacidade de custear uma dieta saudável — afeta 51,9% da população caribenha, 25,9% da Mesoamérica e 22,2% da América do Sul.16
No nível de cada país, essas médias sub-regionais ocultam um quadro mais complexo. A subnutrição de 54,2% e a insegurança alimentar de 83,2% do Haiti o colocam em uma categoria à parte — mas a crise não se limita a um único país. Bolívia (21,8% de subnutrição), Honduras (14,8%) e Equador (12,1%) apresentam taxas de subnutrição bem acima de suas médias sub-regionais, enquanto Jamaica (56,4% de insegurança alimentar), Guatemala (48,8%) e El Salvador (45,5%) mostram que quase metade de suas populações não consegue ter acesso regular a uma dieta saudável. Entre os países para os quais ambos os indicadores estão disponíveis, emerge um padrão consistente: a insegurança alimentar é tipicamente várias vezes superior à subnutrição. Isso significa que, nesses países, milhões de pessoas que não estão tecnicamente passando fome estão, ainda assim, se alimentando mal — sem condições de custear as dietas diversificadas e ricas em nutrientes que protegem contra a desnutrição.
O Super Niño empurra esses números para cima ao devastar a produção de alimentos em escala regional — por meio de secas em algumas áreas e inundações em outras, muitas vezes simultaneamente. Durante o El Niño de 2023–2024, 1,3 milhão de pessoas foram expostas a seca severa em oito países da ALC,47 e 74% dos países da região enfrentaram alta exposição a eventos climáticos extremos que comprometeram diretamente a segurança alimentar.15 Por exemplo, o Brasil vivenciou sua pior seca desde a década de 1950, com 59% de seu território afetado1 e a produção agrícola caindo 7,2%.21 No Peru, o El Niño Costero destruiu 6.000 hectares de cultivos frutíferos no norte do país.3 No Corredor Seco da América Central, 486.000 pessoas já haviam sido afetadas por seca severa em 2023, e 2,7 milhões de pessoas devem precisar de assistência alimentar emergencial em 2026 devido aos impactos relacionados ao El Niño.48
Essas interrupções no abastecimento de alimentos estão estreitamente ligadas a desfechos de saúde da população, por meio de duas vias principais que tendem a se agravar em paralelo. A primeira é a desnutrição aguda. Quando as safras fracassam, as populações mais vulneráveis vêem seu acesso a alimentos significativamente reduzido. Crianças menores de cinco anos são as mais imediatamente afetadas: seu crescimento depende de nutrição adequada durante os primeiros 1.000 dias de vida, e mesmo privações temporárias podem causar danos permanentes. Durante o Niño de 2015, quase 6 milhões de crianças adicionais ficaram abaixo do peso globalmente nos trópicos.5 Na ALC, o Niño de 2023–2024 destruiu colheitas em 54.000 hectares somente na Guatemala,45 e até outubro de 2024 o país havia registrado 25.000 casos de desnutrição aguda em crianças menores de cinco anos, com 21% classificados como graves e 50 mortes associadas.31
A segunda via é o duplo fardo da desnutrição. Quando os preços dos alimentos disparam, as famílias não simplesmente passam fome — elas mudam para o que podem custear. Na América Latina, os alimentos ultraprocessados tendem a ser vendidos a preços mais baixos do que os alimentos frescos, um fator importante para os milhões de pessoas que vivem em situações financeiras precárias.26,37 Isso é relevante porque o maior consumo de alimentos ultraprocessados está associado ao aumento do sobrepeso e da obesidade: uma revisão sistemática e meta-análise dose-resposta constatou que cada aumento de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados como proporção da ingestão calórica diária estava associado a um risco 7% maior de sobrepeso e a um risco 6% maior de obesidade.28 Embora nenhum estudo tenha ainda medido diretamente essa mudança como consequência de um evento de El Niño, o mecanismo é plausível: o Super Niño provoca picos nos preços dos alimentos, e esses picos são conhecidos por empurrar os padrões alimentares na direção dos ultraprocessados. Se essa via operar conforme as evidências sugerem, cada ciclo de Super Niño poderia aprofundar não apenas a fome, mas também as taxas crescentes de sobrepeso infantil na região.
A magnitude dessa vulnerabilidade é visível na parcela da população da ALC que já não consegue custear uma dieta saudável. No Haiti, esse percentual chega a 87,2%; em Belize, 62,4%, Guatemala, 47,8% e Panamá, 43,7%. Mesmo em países de renda média-alta como Chile (40,2%), Colômbia (36,1%) e Uruguai (34,0%), aproximadamente um terço da população está excluída de uma nutrição adequada — antes que um Super Niño eleve ainda mais os custos.16
O que torna essas consequências para a saúde especialmente alarmantes é sua permanência. Anttila-Hughes et al.5 constataram que a perda de peso em crianças causada pelo El Niño persiste ao longo do tempo e é detectável anos depois como redução de estatura, sugerindo que um único ciclo climático pode deixar uma marca duradoura no desenvolvimento físico. Evidências de dentro da região reforçam esse padrão: no Equador, crianças expostas às graves inundações do El Niño de 1997–1998 durante o terceiro trimestre no útero eram mensuravelmente mais baixas cinco a sete anos depois, enquanto aquelas expostas no primeiro trimestre obtiveram pontuações mais baixas em testes cognitivos.41
O desafio de construir sistemas alimentares que resistam ao Super Niño e protejam a saúde nutricional
Enfrentar as consequências do Super Niño para a saúde requer sistemas alimentares capazes de resistir a seus choques. Os atualmente predominantes na ALC não conseguem. A produção de alimentos da região depende fortemente de monoculturas — vastas áreas plantadas com uma única cultura. Análises por satélite mostram que a área cultivada com soja na América do Sul mais que dobrou entre 2000 e 2019, passando de 26,4 milhões para 55,1 milhões de hectares.44 A cana-de-açúcar segue padrão semelhante: somente o Brasil dedica mais de 8,6 milhões de hectares à cultura,42 enquanto as plantações de palma de óleo se expandiram para cerca de 1,28 milhão de hectares, lideradas por Colômbia (499.364 ha), Honduras (217.000 ha), Guatemala (210.000 ha), Brasil (197.165 ha) e Equador (152.529 ha).18
Essa dependência de poucas culturas em enormes extensões de terra é o cerne do problema. Quando um Super Niño traz seca ou inundação para uma região de monocultura, ele atinge cada hectare da mesma forma — porque cada hectare cultiva a mesma lavoura com as mesmas vulnerabilidades. Um único choque climático pode eliminar toda uma safra de uma vez, sem nada mais plantado para compensar a perda.25 Pesquisas confirmam o risco: uma análise de cinco décadas de dados em 91 nações constatou que países com a menor diversidade efetiva de culturas experimentaram um declínio de rendimento nacional de mais de 25% aproximadamente uma vez a cada oito anos. Em contraste, nações com os níveis mais altos de estabilidade enfrentaram um declínio tão severo apenas uma vez a cada 123 anos.39
A política agrícola na ALC reforçou ativamente essa fragilidade. A região é a maior área exportadora líquida de agroalimentos do mundo, respondendo por 45% do comércio líquido internacional de agroalimentos.12 Em diversos países, as políticas públicas historicamente seguiram um modelo de desenvolvimento agroexportador — por meio de crédito rural concentrado em commodities de exportação, marcos de liberalização comercial e programas de garantia de preços para culturas destinadas a mercados estrangeiros — que prioriza a produção de commodities enquanto marginaliza a agricultura familiar.19
A agricultura familiar — caracterizada por sistemas de produção diversificados que preservam a produção alimentar tradicional, a agrobiodiversidade e os valores culturais das comunidades rurais19 — representa 81% das propriedades na ALC (17,8 milhões de estabelecimentos) e responde por mais de 50% da área cultivada de lavouras alimentares básicas como hortaliças, frutas e cereais.11 No entanto, enfrenta acesso limitado a crédito formal e insumos essenciais.32 Segundo a OCDE,32 “é necessário fechar uma lacuna estimada de financiamento anual de USD 98 bilhões para transformar o sistema alimentar na ALC, com a maior parte necessária na América do Sul (USD 73 bilhões) e na América Central (USD 23 bilhões).” O resultado é um cenário de políticas que otimiza para mercados globais de commodities enquanto subinveste sistematicamente nos sistemas alimentares locais que alimentam as populações mais vulneráveis da região.
Agroecologia e Alimentos Inteligentes para o Futuro: alternativas para resiliência climática e saúde nutricional
Um caminho para a resiliência climática e melhor saúde nutricional na ALC — particularmente no contexto das vulnerabilidades que o Super Niño expõe — pode ser encontrado na diversificação agroecológica, nos sistemas locais de sementes e nas culturas adaptadas ao clima. Juntas, essas abordagens contribuem para a soberania alimentar: a capacidade de comunidades e nações de definir e sustentar seus próprios sistemas alimentares.
A agroecologia é uma abordagem agrícola que trabalha com processos ecológicos em vez de substituí-los por insumos externos. Em vez de plantar uma única cultura em vastas áreas, agricultoras e agricultores agroecológicos cultivam múltiplas culturas juntas — combinando espécies que compartilham nutrientes, reduzem a pressão de pragas entre si e respondem de maneiras diferentes ao estresse climático. Fazem rotação de culturas para regenerar os solos e integram árvores e pecuária para reter água e proteger contra eventos climáticos extremos. O princípio subjacente é que a diversidade no nível do campo constrói resiliência: quando uma espécie falha devido à seca ou inundação, outras podem desempenhar seu papel, proporcionando uma capacidade de compensação que protege todo o sistema.2
Evidências de toda a ALC mostram que os sistemas agroecológicos têm melhor desempenho sob estresse climático. Após o Furacão Mitch devastar a América Central em 1998, um estudo de 880 parcelas pareadas em 181 comunidades na Nicarágua constatou que as propriedades agroecológicas tinham, em média, 40% mais solo superficial, maior umidade do solo e menores perdas econômicas do que as propriedades convencionais nas mesmas condições topográficas — e a vantagem aumentava com a intensidade da tempestade.20 O movimento cubano de agroecologia de camponês a camponês (MACAC) alcançou mais de 200.000 agricultoras e agricultores,9 com o setor camponês produzindo aproximadamente 65% dos alimentos da ilha.4 O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) do Brasil conecta mais de 40 milhões de estudantes à produção local e diversificada de alimentos ao determinar que pelo menos 30% dos recursos federais de alimentação escolar sejam destinados à agricultura familiar (essa participação obrigatória foi recentemente ampliada para 45% em 2025).34
Os sistemas agroecológicos também fortalecem a saúde nutricional — e é aqui que os Alimentos Inteligentes para o Futuro (Future Smart Foods, ou FSFs) se tornam relevantes. Os FSFs são culturas que atendem a quatro critérios simultaneamente: são ricas em nutrientes, resilientes ao clima, economicamente viáveis e localmente disponíveis.24 Muitas delas são espécies que comunidades indígenas e camponesas em toda a ALC cultivaram por séculos, mas que saíram de produção em favor de cultivos modernos como variedades padrão de milho, arroz e trigo, à medida que a política agrícola priorizou um pequeno número de culturas de alto rendimento para mercados globais.22 A América Latina abriga uma rica diversidade dessas espécies negligenciadas, como mostra a tabela a seguir:
Essas culturas oferecem o que as monoculturas não podem: micronutrientes diversificados que abordam as deficiências nutricionais por trás do duplo fardo da desnutrição. Propriedades diversificadas produzem dietas diversificadas — particularmente quando a produção é orientada para o consumo doméstico e não para a exportação — e dietas diversificadas são a forma mais eficaz de garantir a ingestão adequada de micronutrientes em populações.24,22 Uma revisão sistemática de 15 estudos constatou que a diversidade alimentar é um indicador válido da adequação de micronutrientes em crianças menores de cinco anos; todos os estudos revisados relataram que pontuações mais altas de diversidade — especificamente o consumo de pelo menos quatro grupos alimentares — estão positivamente associadas aos nutrientes essenciais necessários para o crescimento e o desenvolvimento.27
Preparação dos sistemas de saúde: o lado ausente da resposta
Sistemas alimentares resilientes abordam o lado da oferta — mas as consequências do Super Niño para a saúde também exigem uma resposta do sistema de saúde. As previsões do ENSO podem sinalizar um evento de El Niño com meses de antecedência, e já sabemos o que se segue: picos de desnutrição, surtos de doenças transmitidas por vetores e pela água, lesões e mortes diretas, interrupção de serviços de saúde e impactos na saúde mental.36
As evidências dessa lacuna são contundentes. A atividade de doenças durante anos de El Niño é 2,5–28% maior do que em anos sem El Niño, com surtos de dengue no Brasil diretamente ligados às temperaturas elevadas durante o evento de 2015–2016.6 A infraestrutura de saúde está igualmente exposta: durante o El Niño Costero de 2017 no Peru, 934 postos de saúde foram severamente danificados pelas inundações,17 e até 2020, apenas 4% haviam sido reconstruídos.33 Os departamentos do Peru mais afetados pelo El Niño de 2017 registraram posteriormente as maiores taxas de letalidade por COVID-19 em 2020 — revelando como os danos causados pelo ENSO deixam populações persistentemente mais vulneráveis a crises de saúde subsequentes.38
Nesse contexto, o que se faz necessário é uma mudança da resposta emergencial para a ação antecipatória. Anttila-Hughes et al.5 recomendam explicitamente que “governos e agências envolvidos em planejamento humanitário plurianual devem incorporar previsões do ENSO para antecipar flutuações na disponibilidade de recursos necessários para assegurar o progresso no combate à desnutrição”. Ortiz-Prado et al.36 delineiam prioridades específicas para a ALC: estabelecer sistemas de alerta precoce que conectem a previsão meteorológica à preparação em saúde, construir infraestrutura de saúde resiliente, coordenar entre os setores de saúde, meio ambiente e agricultura para enfrentar os múltiplos perigos simultâneos que o El Niño produz e garantir a prestação ininterrupta de serviços de saúde durante emergências do ENSO.
Avanços, lacunas e o caminho a seguir
No lado dos sistemas alimentares, há avanços importantes em políticas públicas. Em dezembro de 2024, o Parlamento Latino-Americano e Caribenho (Parlatino) aprovou por unanimidade a primeira Lei Modelo Regional para a Promoção da Agroecologia — um marco de dez capítulos e 39 artigos projetado para ajudar os países membros a promulgar legislação nacional que fomente as transições agroecológicas, elaborado com apoio técnico da FAO.13 A FAO também desenvolveu a Ferramenta para Avaliação do Desempenho Agroecológico (TAPE), uma ferramenta digital que “coleta dados no nível da propriedade, avalia o progresso em direção à agroecologia e quantifica seus diversos benefícios”, compilando “evidências harmonizadas globais para demonstrar como a agroecologia pode impulsionar a transição para sistemas agrícolas e alimentares mais sustentáveis”.14
No entanto, lacunas significativas de evidência permanecem. Dados de adoção em escala regional na ALC que vinculem a agroecologia a resultados mensuráveis de resiliência climática ou saúde ainda não existem. A comunidade de pesquisa compreende os impactos agrícolas do ENSO e os benefícios da agroecologia separadamente, mas nenhum estudo mediu ainda como os sistemas agroecológicos se comportam especificamente durante eventos de El Niño ou La Niña em toda a região.
No lado da saúde, a OMS e a Organização Meteorológica Mundial (OMM) estão apoiando países no desenvolvimento de Planos de Ação de Saúde contra o Calor — uma iniciativa mais ampla que inclui o fortalecimento da vigilância dos impactos do calor na saúde, a melhoria do uso de sistemas de alerta precoce de ondas de calor pelo setor de saúde, a construção de medidas de saúde pública no nível local para aumentar a resiliência comunitária e a preparação de hospitais e infraestrutura de saúde para eventos de calor extremo.49 Contudo, um sistema dedicado de vigilância climático-nutricional que conecte previsões do ENSO ao monitoramento nutricional e à intervenção precoce não foi estabelecido como programa operacional na ALC. Anttila-Hughes et al.5 pedem explicitamente sistemas de alerta precoce de fome informados pelo ENSO que permitam a implantação “proativa em vez de reativa” de apoio nutricional, enquanto Ortiz-Prado et al.36 defendem mais amplamente sistemas de alerta precoce e previsão para a preparação em saúde frente ao El Niño, listando a desnutrição entre as principais consequências de saúde que requerem atenção.
O Super Niño está chegando — a ALC estará pronta?
O próximo Super Niño testará tanto os sistemas alimentares quanto os de saúde da ALC. O conhecimento para construir alternativas resilientes já existe — nas comunidades rurais e camponesas que praticam agroecologia há gerações e nas evidências científicas que conectam previsões do ENSO a desfechos de saúde previsíveis. O que falta é pesquisa direcionada conectando a agroecologia à resiliência específica ao ENSO, a integração da previsão climática ao planejamento de saúde e nutrição e a vontade política de investir em ambos antes que a crise chegue. Se a região agirá com base no que já sabe — ou responderá apenas com ajuda emergencial — determinará quantas de suas 167 milhões de pessoas em insegurança alimentar enfrentarão uma crise mais profunda e quantas crianças carregarão as marcas irreversíveis da desnutrição até a vida adulta.
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